“Memória e identidade nos relatos autobiográficos”
Ana Paula Goulart Ribeiro e Kátia Lerner (UFRJ)
O que é biografia e autobiografia? É um relato escrito total ou parcial da vida de um indivíduo, narrado por ele mesmo ou por outra pessoa. Neste sentido, é possível encontrar esses tipos de narrativas em inúmeras sociedades e períodos históricos, especialmente no mundo ocidental. Na Idade Média, por exemplo, ficaram famosas as biografias de Luís VI, escrita por Suger, de Luís IX, por Joinville e de Luís XI, por Commynes entre outros (BURKE, 1997:83). No Renascimento, houve uma proliferação de textos biográficos, associados ao que Burckahrdt chamou de “desabrochar do indivíduo”. Peter Burke cita entre os principais biografados Dante, Petrarca, Aristóteles, Cícero, Platão, Sêneca e outros. No entanto, o autor assinala que esses relatos não eram exatamente biografias ou autobiografias tais como as entendemos, pois eles não discutiam o desenvolvimento da personalidade, ignoravam a cronologia e, em geral, introduziam materiais aparentemente “irrelevantes”, dando a impressão de “ausência de forma”.
Apesar de existirem relatos biográfico e autobiográficos no mundo ocidental desde a antigüidade, foi somente com a emergência da modernidade que esses dois tipos de discursos se constituíram como gêneros acabados e reconhecidos como tais. O termo “biografia”, por exemplo, já tinha sido cunhado na Grécia no final do período antigo, mas aparece nas línguas inglesa e francesa apenas no final do século XVII e na língua alemã, no final do XVIII (BURKE: 90-91).
O desenvolvimento das sociedades urbano-industriais implicou em uma série de transformações, como a dissolução dos laços estreitos que uniam os indivíduos às suas coletividades, característicos das sociedades tradicionais. Isso levou à emergência de uma outra forma de organização social, que trouxe consigo uma nova concepção de self, ancorada na idéia de indivíduo autônomo.
“O escrito autobiográfico implica uma cultura na qual, por exemplo, o indivíduo ( seja qual for sua relevância social) situe sua vida ou seu destino acima da comunidade a que ele pertence, na qual ele conceba sua vida não como uma confirmação das regras e dos legados da tradição, mas como uma aventura para ser inventada. Ou ainda uma cultura na qual importe ao indivíduo durar, sobreviver pessoalmente na memória dos outros – o que acontece quando ele começa a viver sua morte como uma tragédia, pois a comunidade pára de ser a grande depositária da vida, garantia de toda a continuidade.” (CALLIGARIS:46)
A saída da sociedade tradicional permitiu, assim, o desenvolvimento do sentimento da história como aventura autônoma, individual, o que permitiu a afirmação da biografia e da autobiografia como gêneros discursivos autônomos. Afinal, como afirmou Calligaris, “se certamente sempre se escreveram histórias de vida, por outro lado, a idéia de que a vida é uma história é moderna”. Como afirmou Gilberto Velho (1994:100):
“Nas sociedades onde predominam as ideologias individualistas, a noção de biografia, por conseguinte, é fundamental. A trajetória do indivíduo passa a ter um significado crucial não mais contido mas constituidor da sociedade. É a progressiva ascensão do indivíduo psicológico, que passa a ser medida de todas as coisas. (...)Carreira, biografia e trajetória constituem noções que fazem sentido a partir da eleição lenta e progressiva que transforma o indivíduo biológico em valor básico da sociedade ocidental moderna”
Nas últimas décadas, entretanto, a noção de self da modernidade vem sofrendo alterações. A concepção iluminista do indivíduo - como centrado, unificado, dotado de capacidade de razão, de consciência e de ação, cujo centro consistiria num núcleo interior essencialmente o mesmo ao longo da sua vida - vem sendo substituída por uma idéia fragmentada de eu. Alguns autores afirmam que estaríamos vivendo hoje uma crise da identidade. Os quadros de referência que no passado tinham fornecido aos indivíduos sólidas localizações no mundo social (como as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia e nacionalidade) estariam sendo drasticamente abalados. As nossas identidades pessoais - a idéia que temos de nós mesmos como sujeitos integrados - estariam sendo deslocadas ou fragmentadas.
O colapso das formas estáveis de identidade é entendido como resultado de mudanças estruturais e institucionais pelas quais passam as sociedades contemporâneas. Uma série de transformações radicais estão se processando em diferentes esferas da sociedade, no âmbito econômico e social, em relação à política e à cultura e, ainda, em relação aos meios de comunicação (com o surgimento das chamadas novas tecnologias).
O enraizamento em territórios de pertencimento e a história cultural compartilhada parece não mais constituírem, como na modernidade, pré-requisitos para ligar as pessoas umas às outras; os vínculos sociais podem também se instalar de forma eletiva e contingente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, não unificando-as mais ao redor de um “eu” coerente. O sujeito “pós-moderno” parece, assim, não ter mais uma identidade fixa, essencial ou permanente. Por tudo isso, alguns autores preferem não mais falar em identidade (pois essa noção sugeriria uma idéias de unidade e estabilidade) e propõem a sua substituição pelo conceito de identificação, que remete a um processo dinâmico e instável, mais apropriado à contemporaneidade.
Qual seria neste contexto a especificidade dos gêneros biográfico e autobiográfico? Calligaris nos dá algumas pistas para pensar esta questão. Apesar do autor não se referir especificamente à pós-modernidade, ele distingue entre o que seria a “aurora da modernidade” e a “contemporaneidade”. Segundo ele, a modalidade específica pela qual o sujeito contemporâneo se diz (e, portanto, se constitui) se dá a partir de um desejo de celebridade, entendida não necessariamente como fama, mas como publicização de uma imagem. Calligaris fala em “compor uma imagem para os outros”. Isto é válido também para os relatos íntimos, mesmo quando o indivíduo não tem como objetivo a sua publicação.
“(...) a celebridade está se tornando o equivalente contemporâneo do que era a intimidade na aurora do sujeito moderno e acabou sendo mais tarde o sentimento de uma bildung (...). O foro íntimo onde cada um procurava se retirar para existir e consistir é agora o fórum da pólis.” (CALLIGARIS, 1998:55)
Essa questão nos permite compreender a proliferação de escritas autobiográficas de pessoas que tradicionalmente não eram consideradas “dignas” desse tipo de relato. Quem, normalmente, merecia ser objeto de biografia ou de autobiografia? No mundo antigo e medieval, eram governantes e filósofos e, em menor escala, generais e literatos. No Renascimento, as possibilidades se ampliam; além de governantes, escritores e os condottieri, mulheres e artistas de destaque passam a serem biografados, bem como indivíduos importantes de outras culturas, como líderes “bárbaros” e muçulmanos. Esse padrão de biografar figuras de destaque se mantém na modernidade. Com a emergência da sociedade de massa, um conjunto de indivíduos, que Edgard Morin chamou de olimpianos, passa a ser incluído: cantores, atores, desportistas, jornalistas, apresentadores de TV etc.
Nas últimas décadas, observa-se um crescimento significativo de relatos autobiográficos referentes a pessoas que não ocupam posição de destaque no conjunto da sociedade. Trata-se das pessoas “comuns”, que apresentam, entretanto, algum elemento distintivo: seja o fato de terem compartilhado da intimidade de figuras famosas (como o mordomo do cantor Roberto Carlos, por exemplo, que escreveu o polêmico livro O Rei e eu) ou por terem sido testemunhas de algum tema de impacto da atualidade (como os sobreviventes do Holocausto nazista e outras situações históricas dramáticas). Mas há também os totais “anônimos” que se lançam a escrever (ou contratam profissionais para fazê-lo) suas próprias histórias.
Este fenômeno tem dois aspectos complementares: por um lado, existe o impulso da escrita (ou seja, uma enorme quantidade de pessoas reconhece que sua vida é uma história e busca externalizá-la sob a forma de um texto literário, para que ela se perpetue) e, por outro, há um reconhecimento social da importância desse tipo de narrativa. Isto se expressa desde um interesse puramente mercadológico (das editoras em publicar este tipo de material, diante da enorme procura que eles apresentam[1]), até a legitimidade acadêmica e institucional.
Na França, por exemplo, existe desde 1992 a Association pour l’autobiografie et le Patrimoine Autobiographique em Ambérieu-en-Bugey, que reúne um acervo de textos autobiográficos deste tipo. Entre os anos de 1992 e 1996, foram encaminhados a esta instituição 234 textos (121 escritos por mulheres e 113 por homens, estando eles na maioria entre 55 a 85 anos). Os relatos apresentam em geral uma enorme variedade de tamanho, de tom e de conteúdo, comportam crônicas familiares e narrativas corriqueiras. Falam sobre amores, infância, fracassos, êxitos etc. Outra associação francesa, chamada “Vivre et l’écrire”, de Orléans, faz um trabalho similar, coletando diários íntimos de adolescentes (LEJEUNE, 1997).
Há também, no Brasil, instituições que visam registrar e arquivar a história de vida de pessoas “anônimas”. Este é o caso do Museu da Pessoa, que recebe e disponibiliza pela Internet relatos autobiográficos e biográficos, além de realizar projetos de pesquisa para indivíduos, famílias, empresas, comunidades e instituições. O seu acervo reúne, atualmente, cerca de 500 depoimentos e mais de mil fotografias e documentos digitalizados. Como ele próprio se define:
“O Museu da Pessoa, fundado em 1992, tem por objetivo democratizar o registro da memória, permitindo que todo e qualquer indivíduo da sociedade tenha sua história de vida registrada e preservada.” Este é um museu virtual do qual você pode fazer parte, escrevendo e incluindo em nosso acervo a sua história de vida.”
No mundo acadêmico, também tem aumentado o interesse pelas narrativas biográficas de “anônimos”. Impulsionados pela Nova História francesa – que propõe novos problemas, novos objetos e novas abordagens –, historiadores se voltam para este gênero, que durante muito tempo esteve associado a uma concepção tradicional de história, mais preocupada com os grandes homens e seus feitos. Sob a influência do marxismo e da Escola dos Annales, o estudo do passado se voltou para as macroestruturas e para a longa duração e os relatos biográficos foram pouco valorizados. Atualmente, presenciamos o seu resgate, seja como fonte histórica, seja como produto do trabalho do próprio historiador. Neste contexto, não são os grandes personagens os únicos que interessam, como ilustra o caso de Carlo Ginzburg com seu livro sobre o moleiro Menocchio (O queijo e os vermes).
Se os historiadores têm se voltado, cada vez mais, para os “anônimos”, o mesmo não tem ocorrido com os jornalistas, que, presos às demandas do mercado editorial, continuam privilegiando personalidades conhecidas. Podemos, entretanto, constatar um movimento de resgate de figuras esquecidas, tais como Garrincha, Antônio Maria e o próprio Assis Chateaubriand, que com o livro de Fernando Morais sai do ostracismo e volta a ser objeto de atenção dos meios de comunicação e de debate público.
Um outro elemento que marcaria a especificidade das narrativas biográficas no contexto contemporâneo seria a abordagem destes relatos. Mesmo quando se trata de personagens famosos, os biógrafos buscam resgatar facetas diferenciadas: não só sua vida pública e seus feitos notáveis, mas também os sentimentos, inconsciente, cultura, dimensão privada e cotidiano (SCHMIDT, 1997:17). Uma tendência similar pode ser observada na forma pela qual o Museu da Pessoa define o objetivo e a importância de seu trabalho:
“Essas histórias e fotografias constituem uma fonte de informação histórica única e preciosa. Por meio de cada uma das histórias podemos entender como pessoas das mais diversas origens e formações culturais vêem e vivenciam seu dia-a-dia, seu passado e seu futuro. É uma maneira de podermos viver um pouco outras vidas além da nossa própria.”
Repensando as definições
Até o momento, viemos falando de biografia e autobiografia de uma forma indistinta. Seria importante, entretanto, discutir o que se entende por cada uma dessas categorias. À primeira vista, a diferença entre esses dois gêneros é clara: no primeiro, o autor é o próprio personagem cuja vida está sendo contada e, no segundo, a narrativa é realizada por uma outra pessoa. A biografia pressupõe uma certa imparcialidade por parte do biógrafo. Escrita geralmente em terceira pessoa, provoca um efeito de distanciamento entre quem narra e o objeto da narrativa. Na autobiografia, ao contrário, a subjetividade é explicitada, inclusive pelo uso da primeira pessoa.
Essas diferenças, entretanto, são mais aparentes que reais. Em primeiro lugar, os dois gêneros, como toda narrativa, são construções. As histórias contadas não são um retrato fiel das experiências de vida, mas relatos nos quais a linguagem exerce um papel ativo. Linguagem entendida aqui não como instrumento que os sujeitos utilizam para descrever o mundo, mas como um elemento constitutivo desses mesmos sujeitos, do mundo e das relações entre eles. Linguagem como espaço de atualização das correlações de força dos grupos sociais.
A objetividade e a subjetividade que a biografia e a autobiografia aparentam são efeitos discursivos, relacionados a diferentes estratégias de autoridade por eles mobilizadas. Essas narrativas constróem diferentes lugares de fala, produzindo sobre os leitores diferentes expectativas e efeitos de sentido.
No caso das biografias o que produz efeito de objetividade é o apagamento do sujeito da enunciação[2] e a garantia de que o biógrafo manter-se-á neutro, imparcial, e que o texto escrito será o resultado de uma pesquisa “séria” com a utilização de fontes orais e escritas (entrevistas, consultas a arquivos etc.), refletindo a “verdade” dos fatos. Entretanto, ao se observar não apenas os textos mas também a “escrita” (o seu processo de criação), percebe-se que esse tipo de relato é também ele um reduto da subjetividade. Inúmeros depoimentos de biógrafos, tais como o jornalista Alberto Dines – que escreveu sobre a vida de Stefan Zweig – e a ficcionista Ana Miranda – que biografou Gregório de Mattos e Augusto dos Anjos, ilustram isto:
“(...) ao levar o meu personagem para o divã da psicanálise (...) eu estava vivenciando com grande intensidade o encontro com o Outro, razão primeira e essência da experiência biográfica (...) tentei promover um encontro comigo mesmo.” Alberto Dines (Apud BENCHIMOL, 1995:97)
“Minha motivação pessoal deve ser, portanto, alguma coisa ligada ao meu amor pela poesia, ao meu ser poético. Além disso, sinto uma identificação profunda com esses dois homens, porque se entregaram de corpo e alma à literatura. Mistério que esses personagens representam me atraiu. Queria fazer deles parte de minha vida, meus antecessores, no sentido de que fala o Borges. Queria conhecê-los como se estivesse conhecendo a mim mesma. Queria ser outra pessoa através deles.” Ana Miranda (Apud BENCHIMOL, 1995:98)
A estratégia de autoridade das autobiografias, por sua vez, está na proximidade (ou “confusão”) entre o sujeito da enunciação e o autor empírico. Essa proximidade, no entanto, é também ela uma construção discursiva. Isto fica evidente no caso da utilização de ghost writers e nos casos em que depoimentos de uma pessoa são organizados por uma outra, que edita o material, selecionando e ordenando as informações. É o caso, por exemplo, do livro de memórias Minha Razão de Viver de Samuel Wainer e do Depoimento de Carlos Lacerda. Ambos os textos foram o resultado de muitas horas de entrevistas que os dois jornalistas concederam pouco antes de morrer. No caso do Lacerda, foram 34 fitas deixadas e, no de Wainer, 53.
O efeito de subjetividade que a autobiografia produz também se ancora na experiência daquele que narra: escrevo sobre os fatos que vivi. Mas os fatos vividos não são uma realidade assim tão palpável. Podemos citar como exemplo o caso da autobiografia de Salomón Isacovici, sobrevivente do Holocausto, publicada no México em 1990. O livro, A7393 Hombre de Cenizas, teve como ghost writer Juan Manuel Rodríguez, ex-padre jesuíta e escritor espanhol radicado no Equador, que, alguns anos depois, reivindicou a autoria principal da obra, alegando que o sobrevivente foi apenas o ponto de partida para a narrativa. Diz Juan Rodríguez (Apud STAVANS,1999:125):
“Usei minhas memórias (...) como inspiração. Quando mostrei o resultado para Salomão ele ficou espantado de ver quanto eu sabia sobre seu passado. Eu inventei passagens e detalhes e depois ele acreditou que passou por eles. Para ele o livro é uma autobiografia, para mim, um romance charmoso”.[3]
Afinal de contas, quem é o autor? Quem são o biógrafo e o biografado? Qual é a realidade dos fatos vividos? A questão da subjetividade e da autoria nos remete, assim, a uma outra, que é a das fronteiras entre ficção e realidade nos gêneros biográficos.
Tradicionalmente tanto a biografia quanto a autobiografia (assim como a história e o jornalismo) tinham o compromisso de se ancorarem na factualidade, na distinção entre o real e a ficção. No entanto, uma das tendências destes gêneros na contemporaneidade é tentar, justamente, diluir essas fronteiras. As obras de Ana Miranda e Moacyr Scliar são, neste sentido, exemplares. Scliar, em Sonhos Tropicais, narra a trajetória de Oswaldo Cruz no início do século, misturando ao relato personagens fictícios, como um médico alcoólatra e um acadêmico norte-americano, que pesquisam, quase noventa anos depois, a vida do sanitarista. Miranda, ao narrar a vida de Gregório de Matos, também mistura personagens históricos e fictícios.
Memória e Identidade
O que leva, no contexto contemporâneo, uma pessoa a escrever o seu livro de memória? O que leva alguém a escrever sobre a vida de uma outra pessoa? Ou, ainda, o que leva as pessoas a lerem biografias ou autobiografias?
Para quem escreve, o relato biográfico é sempre uma estratégia (não no sentido de uma intencionalidade consciente), mas no sentido em que responde a alguma demanda do contexto social no qual ele se encontra (tanto no sentido mais geral, histórico-cultural mais amplo, quanto no nível situacional, mais imediato).
A proximidade da morte, nas sociedades ocidentais desenvolvidas, coloca muitas vezes aos sujeitos a necessidade da busca de perenidade e/ou de auto-valorização. Esse seria caso de grupos de idosos que, numa sociedade veloz (que cultua o vigoroso e o novo), buscam eternizar as suas histórias de vida em narrativas. Tanto na Association pour l’autobiografie, na França, quanto no Museu da Pessoa, no Brasil, entre os biografados e autobiografados, há o predomínio de indivíduos acima de 60 anos.
Alguns grupos de idosos escrevem suas memórias impulsionados por outros motivos. Proliferam livros de pessoas que passaram por experiências históricas dramáticas, como os sobreviventes do Holocausto. Neste caso, encontra-se tanto a busca pela perenidade de sua própria trajetória individual, como também o desejo de eternizar uma experiência coletiva. Estas narrativas, assim como o próprio Holocausto, são vistas como um “patrimônio” da história judaica que deve ser preservado, e que marca a continuidade deste grupo no tempo.
O lembrar, algumas vezes, pode estar associado a um contexto de luta política. Carlos Lacerda, convidado a prestar depoimento para uma espécie de banco de informações históricas organizado pelo Jornal da Tarde em 1977, utiliza este espaço de rememoração para fazer um balanço de sua trajetória, evidenciando sua participação na história política brasileira, que visava, em última instância, sua reinserção na vida pública, após 10 anos de cassação.
O ato biográfico também pode ser impulsionado por um fenômeno mass midiático. Aproveitando a visibilidade adquirida por uma fama momentânea, algumas personalidades buscam atingir o “estrelato” e se inserir na sociedade de consumo de uma forma mais duradoura, como demonstram o relato Adriane Galisteu (publicado logo após a morte de Ayrton Senna) e, recentemente, o de Narcisa Tambourindeguy.
Essas diferentes estratégias estão associadas, de uma forma ou de outra, à construção ou afirmação de identidades. As lembranças, apesar de pertencerem aos indivíduos, se originam na sociedade. Os sujeitos só lembram das suas vidas a partir do ponto de vista de um grupo social específico, ao qual de alguma forma se vinculam[4].Determinadas versões do seu passado funcionam como referência comum e fornecem coerência, no tempo, aos seus quadros de representação simbólica. A memória está interligada diretamente às identidades sociais.
O olhar retrospectivo das narrativas biográficas e autobiográficas é sempre seletivo, implicando num processo de ordenamento, de produção de sentido, que pressupõe enquadramentos, esquecimentos e silêncios (POLLAK,1989). Fatos e aspectos do passado são recordados e enfatizados a partir da relevância que têm para os indivíduos que recordam, pelo seu contributo na construção da identidade e das relações pessoais.
O ponto de partida de qualquer ato mnemônico é o presente. Lembrar não é reviver uma experiência passada, mas reconstruí-la com imagens e idéias de hoje, a partir de materiais que estão à nossa disposição. A memória, por ser essencialmente discurso, é sempre contextual e dialógica. A sua organização está ligada a processos resultantes de conflitos e negociações que os sujeitos travam em situações sociais concretas[5].
No contexto da contemporaneidade, os relatos biográficos respondem a uma questão cultural mais geral, que diz respeito ao papel emblemático que o passado e a memória vêm adquirindo. Trata-se, como afirmou Andreas Huyssen, de uma tentativa de compensar o ritmo acelerado das informações, de resistir à dissolução do tempo, de descobrir outras formas de contemplação além da do universo da informação rápida, de afirmar um território em um mundo de desnorteante e ameaçadora fragmentariedade. Assim, a construção biográfica é crucial porque atribui sentidos à “realidade” num mundo cada vez mais marcado pela dispersão e pluralidade.
Em outras palavras, num contexto em que as identidades sociais aparecem cada vez mais fragmentadas, relatar as histórias de vida (sua própria ou de outros) se apresenta como uma estratégia crucial para a produção de uma coerência, de atribuição de sentido à interação entre o indivíduo e a sociedade.
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[1] Ana Maria Filizola e Elizabeth Rondelli (1997: 211) citam um artigo da revista Veja, segundo o qual, no ano de 1996, o setor de biografias no Brasil cresceu mais do que o mercado editorial como um todo. Em apenas um ano, foram lançadas 181 biografias (uma a cada dois dias, quase quatro por semana).
[2] Sujeito da Enunciação (enunciador) é a imagem discursiva que aquele que fala atribui a si mesmo, emissor, que não coincide necessariamente com o autor empírico. Cf. BENVINISTE (1991).
[3] Tradução livre do inglês.
[4] Em seu livro A memória coletiva, Maurice Halbwachs (1990) inaugura a discussão sobre o tema a partir de uma abordagem sociológica. Contrapondo-se às abordagens correntes na época, que tomavam este fenômeno a partir de uma perspectiva psicológica ou filosófica, Halbwachs vai propor que a memória não é algo que reside no interior do indivíduo, mas um fenômeno acima de tudo social, construído dentro de grupos sociais concretos.
[5] Gerárd Namer, em seu trabalho intitulado Mémoire et societé, irá aprofundar as idéias de Halbwachs, fazendo entretanto algumas sugestões um tanto diferentes. Concordando com a idéia da memória como constituída dentro do grupo, ele sugere que não haveria uma correspondência exata entre o grupo a que eu pertenço e minha memória, mas um diálogo interiorizado que negociaria diferentes referências. A lembrança, como diz Halbwachs, se produz a partir do presente, mas “determinada” por múltiplos fatores: pelo público a quem ela se destina, pelo grupo cujo ponto de vista o narrador se coloca, etc. Isto implicará inclusive num “tom”, num estilo a ser adotado para narrar esta história.